O
homem grande – tanto em altura quanto em largura – estava sentado bebendo uma
dose de whisky. Estava sozinho observando o que acontecia ao seu redor.
A
mulher dançando no palco. Homens olhando pra ele de forma curiosa. Mulheres
passando servindo mesas. Mulheres com pouca roupa em busca de clientes.
Observar
essas coisas tirou a atenção dele ao ponto dele não perceber a aproximação de
duas pessoas, quando se deu conta o casal já estava sentado nas cadeiras vazias
de sua mesa.
Ele
tinha um bom porte físico. Seus cabelos eram prateados e seus olhos azuis
safira. Ela já era um pouco mais baixa, mas com corpo atlético. Seus cabelos
eram castanho escuro, e estavam curtos. Seus olhos eram âmbar. Bisone os
conhecia.
-
Lupu e Lepore. – cumprimentou Bisone dando uma golada em seu whisky. – O que os
traz aqui?
-
Eles nos procuraram. – respondeu Lupu.
- E
vocês acharam melhor nos trair. – concluiu Bisone metendo a mão dentro de sua
jaqueta de couro preta e tirando uma carteira de cigarros mentolados.
-
Não é trair – começou Lepore – apenas queremos conversa e te mostrar que esse é
a melhor opção. Eles têm como controlar nossos impulsos.
-
Foi isso que te disseram? Aposto que foi o que disseram a Protelo. – Acendeu o
cigarro e deu uma tragada profunda – antes de meterem sei lá quantas balas
nela.
-
Ela já estava descontrolada, tu ainda não tá. – disse Lupu olhando seriamente
para seu conhecido.
-
Eu me lembro dos absurdos que tu fazia cara. – comentou Bisone fazendo uma
pausa para dar outra tragada.
-
Pra ti ver como estou melhor.
-
Não vem com esse papo pra cima de mim Lupu, tu é um animal sanguinário e vem me
dizer que se reabilitou? – Deu uma longa tragada e soprou a fumaça de seus
pulmões – Tenha dó.
-
Não dificulta as coisas, por favor. – pediu Lepore segurando a mão de seu
antigo colega – Queremos que isso acabe bem.
-
Vocês vão ter que me matar – disse Bisone virando a mesa em cima dos dois em
seguida correndo para a porta dos fundos.
Lupu
sacou seu revolver, era uma Magnum 44 maior do que o normal. Ele fez mira em
Bisone, mas Lepore baixou a mão do mesmo impedindo que ele atirasse ali dentro:
-
Nada de civis feridos.
Apesar
do tiro não ter sido disparado, o pânico foi instaurado, tanto por Bisone ter
corrido atropelando quem estivesse em sua frente, quanto pelo fato de Lupu ter
sacado um revolver muito maior do que muita gente já viu ou irá ver na vida.
A dupla também correu para a porta
dos fundos. Em meio a todo esse alvoroço havia um jovem sentado assistindo ao
que estava acontecendo com um sorriso nos lábios. Ele tinha a pele bem clara.
Cabelos prateados e ondulados na altura dos ombros. Assim que os três
causadores do alvoroço saíram, o jovem foi logo atrás lenta e calmamente.
Lepore abriu a porta logo pouco
depois de Bisone, e ele a estava esperando do outro lado em um beco largo.
Assim que ela surgiu o homem imenso aplicou uma cabeçada que a mandou de volta
para dentro da boate.
Lupu viu sua parceira ser
catapultada, mas não se importou se a mesma se machucou, a captura de Bisone
era mais importante. Atravessou a porta.
Ela foi aparada pelo jovem que estava seguindo os três.
-
Calma docinho, sei que sou bonito, mas não precisa se jogar aos meus pés. –
disse o jovem com Lepore no colo.
-
Obrigado. – Se pôs novamente de pé e começou a fazer força. Suas orelhas foram
ficando cada vez mais pontudas. Seu nariz se tornou um focinho. Sua boca ficou
pequena e com dois dentes superiores para protuberantes. Ficou um pouco
curvada. Suas mãos ficaram peludas e com garras. Seus pés rasgaram seus
sapatos. Suas pernas engrossaram ao ponto de rasgar a calça praticamente toda
mostrando coxas muito grossas por conta de uma musculatura excessiva.
-
Acho melhor você ficar distante. – Pediu Lepore. Em seguida deu um salto se
impulsionando para fora de novo. Se tornou um borrão atravessando a porta, e
deixou uma rachadura na cerâmica da boate.
Do lado de fora Lupu já havia se
transformado em um lobo bípede imenso e estava lutando contra Bisone que estava
maior do que já era. Com um par de chifres pequenos. Sua roupa toda havia se
rasgado, seu corpo estava coberto por pelos. E no lugar de pés, tinha cascos.
-
Não faz isso Bisone, já disse que não viemos aqui pra te matar – rosnou Lupu.
-
Não é o que tá parecendo. – Respondeu Bisone investindo em mais uma cabeçada.
Lupu
esperou pelo ataque e o recebeu inteiro no peito, mas conseguiu frear a fera
abrindo uma fenda no chão. Ele cravou suas garras nas costelas do seu
adversário, que mugiu alto, em seguida o levantou e o jogou para o lado.
-
Vamos finalizá-lo Lepore. – Informou Lupu.
Lepore
pegou uma das adagas que estavam em um suporte elástico em sua perna e foi
caminhando até Bisone.
-
Deixa que eu faço isso. – Disse Lupu se virando para pegar a adaga de Lepore,
quando foi acertado por um coice que o lançou do outro lado do beco e rachou o
reboco da parede. Lupu caiu sentado e muito tonto para conseguir se levantar. E
já voltando a forma humana.
Lepore
puxou mais duas adagas e ficou em guarda.
-
Eu não queria que as coisas acabassem assim.
Bisone
se agachou um pouco e se inclinou pra frente:
-
Não vou me tornar o animal de estimação de quem já me transformou em monstro.
Lepore
realmente não queria matar seu antigo amigo, era um dos mais próximos, mas
aquilo fazia muito tempo, muito antes da missões militares que os separaram,
muito antes do programa militar ser encerrado e terem suas experiências
caçadas. Muito antes deles perderem a inocência.
Ela
sentiu seus olhos arderem. Estavam marejados:
-
Por favor, não faz isso. Por favor, não.
Bisone
disparou pra cima de Lepore. Seus cascos abriram fendas no chão.
Lepore
se agachou e foi pra cima de seu adversário, mas no momento de quase colisão
dos dois, ela girou pra esquerda e enfiou uma das adagas – a de sua mão
esquerda – no peito da criatura. Girou seu corpo quarenta e cinco graus e
enfiou a outra adaga na coluna do seu alvo.
Ele
capotou, caindo primeiramente de face no chão, seu corpo levantou, dando uma
cambalhota torta, que quebrou sua coluna no meio e bem no inicio da nuca. Ele
parou praticamente ao lado de Lupu que já estava se pondo de pé.
As
lágrimas já estavam escorrendo pelo rosto peludo de Lepore.
O
alvo estava agonizando.
Lupu
pegou a adaga que ele havia deixado cair e como um ato de misericórdia perfurou
o coração da fera, dando fim a ela:
-
Me desculpa grandão. Eu realmente não queria fazer isso.
Os
olhos de Bisone arregalaram. Estavam marejados. Uma lágrima escorreu.
Lentamente seus olhos foram fechando. Ficaram semicerrados.
-
Como você está?
Ela
respondeu em meio a lágrimas:
-
Nada bem. Eu queria que ele tivesse vindo com a gente.
Lupu
pegou um celular dentro de sua bermuda e começou a fazer uma ligação:
-
Esses telefones realmente são resistentes.
Lépore
se manteve calada.
Alguém
atendeu:
- A
missão não saiu como o esperado e tivemos que neutralizar mais esses. – uma
breve pausa – Sim senhora. Como quiser. Já estamos a caminho. – Desligou o
telefone – Ela mandou a gente voltar.
- E
ele, vai ficar aqui e jogado?
Bisone
já estava voltando a sua forma humana.
Lupu
respondeu a pergunta de sua parceira:
-
Ela vai mandar a equipe de limpeza, mas vamos logo embora.
Lépore,
preferiu não olhar pra seu amigo. Virou de costas já voltando a forma humana e
saiu daquele beco escuro. Aquele era o terceiro amigo de infância que ela
matava, e ela tinha certeza que não seria o último.
Quando os dois já estavam longe o
rapaz de cabelos longos e ondulados se aproximou do corpo no chão:
-
Me desculpe meu irmão. Não fui tão rápido. Eu queria ter chegado em ti antes
deles. E me perdoe por não ter feito nada para impedir – Se agachou e fechou os
olhos do cadáver – Ainda preciso passar muito tempo longe dos holofotes. – Se ajoelhou
– E você vai ter a sua vingança eu prometo.
Uma
voz feminina suave completou:
- E
até lá irmão. viva dentro de mim.
A
ruiva recém-chegada aplicou uma mordida na jugular do cadáver e começou a sugar
o sangue frio e prestes a começar a coagular estacionado nas veias de Bisone,
que um dia teve um nome de verdade, mas esse nome há muito havia sido esquecido
e apagado de todo e qualquer registro.
Ele
corria desenfreado pela floresta.
- Mundus me ajuda. -
gritou.
O
horror estava estampado em seu rosto, o que o caçava estava em seu encalço e
tudo o que ele conseguia pensar - além de conseguir fugir de seu predador - era
em sua família.
Sua
esposa que provavelmente estava à espera dele em sua cabana com o jantar. Ah
como ela é boa para ele, como o cuida com tanto carinho, como nunca alguém
antes o fez.
Ele
mesmo estava estranhando estar pensando naquilo justamente naquele momento,
pensando nas massagens que as vezes recebia... Em como ela o catava com tanta
paciência, ou das vezes que lhe dava de comer na boca.
Lembrava-se de como era sempre
recebido com um belo sorriso e um abraço terno, seguido de um roçar de rosto e
as vezes de nariz.
E lembrar-se
de sua recepção ao chegar em casa lembrou-se também que provavelmente não veria
mais o rostinho lindo e liso de sua cria, pequena ainda, mal conseguia pôr-se
de pé, sempre que ele chegava a pegava nos braços e brincava um pouco enquanto
o jantar era preparado.
Pensar
que ele não poderia vê-la crescer lhe doía muito. A ideia de não poder ver sua
cria crescer forte e saudável, vê-la tornar-se uma caçadora forte e destemida,
talvez até a líder de seu próprio bando, e um dia procriar, doía muito.
O
barranco que o livraria enfim do seu caçador estava logo a frente, havia um
segredo para atravessá-lo, um pequeno detalhe que ainda que todos vissem não
adiantaria, era o tipo de coisa que você tinha que saber realmente fazer e
exigia um treinamento que ele teve, dado por sua mãe.
Já
estava sentindo o alívio, seu coração já estava cheio de esperança, já estava lembrando
com satisfação, chegou até a pensa que naquela noite ele acasalaria com sua
companheira.
Ouviu
um som alto que ecoou pela floresta, e junto do som uma um impacto acompanhado
de dor lancinante mais precisamente do lado esquerdo.
Ele foi
arremessado barranco abaixo, e aquele sim foi o momento em que lhe bateu o
desespero... Ele rolou desajeitadamente, seu corpo foi ralando nas pedras, sua
cabeça bateu com força em uma rocha abrindo uma fenda, ossos foram se partindo,
e ele não parou de rolar.
Subiu
um pouco pelo impulso da queda e caiu com a coluna em uma rocha, ele grunhiu, e
continuou a cair, e agora de um segundo barranco que o fez cair de pé quebrando
suas duas pernas, agora ele gritou, e continuou a queda.
Mais
uma vez teve seu corpo tirado do chão e caiu de costa em um grupo de rochas que
meio que formava um ninho, e ali ele estacionou, era o fim da queda.
Estava com várias lacerações pelo
corpo, vários ossos quebrados, e sem sentir a parte de baixo de seu corpo.
Ele via
o fogo chegando de cabeça para baixo, seu corpo pendia para fora do grupo de
rochas ameaçando cair, mais um pouco e ele poderia se perder no rio Devorador
que passava um pouco mais abaixo.
Ainda
tinha um pouco de consciência, mas nenhuma esperança, ainda que sobrevivesse,
não passaria de um estorvo para todos os seus.
Ouviu
sons vindo de cima, sons que ele não conseguia distinguir o que era, podia até
mesmo ser sons vindos de sua própria cabeça já bem avariada. De qualquer forma
o som estava se aproximando, pareciam gritos, e agora era mais de um.
Ele
entendeu que aquilo queria dizer que eles estavam indo a seu encontro, e ele
preferia a morte ao ser pego.
Murmurou
pedindo que Mundus protegesse a sua família e os seus, e que o recebesse de
braços abertos do outro lado. A luz do sol começou a aparecer, nascendo no horizonte,
e com ele o corpo do macho quase morto começou a entrar em combustão, em meio a
sons jamais ouvidos antes.
Os dois
homens que desciam o barraco com pressa, já menos preocupados pois o sol
começava a mostrar sua face. Assustaram-se ao ouvir o ser esturrar seguindo de
um som jamais ouvido por eles antes, algo agudo, que lhe invadia o corpo e lhe
causava aquele frio na espinha, uma mistura de dor e sabe-se lá Deus o que
mais.
A última coisa que viram, foi o
ser entrar e combustão assim que a luz do sol o tocou. Ficaram em silêncio
alguns instantes, até que as cinzas foram carregadas pelo vento matinal.
- O que
diabos era aquilo Aluísio? – perguntou a seu amigo incrédulo.
- Eu
não faço ideia. – respondeu Aluísio tentando processar o que acabou de presenciar.
- E por
que tu atirou nele?
-
Fiquei com medo e também a queria em minha coleção.
- É o
que?
- Ele
tinha pelo em quase todo o corpo e onde não tinha pelo, a pele era lisa e quase
transparente, apesar de bizarro era um belo ser para empalhar e expor, quem
sabe até ganhar um prêmio.
- Você
chega a me dar repulsa meu caro colega. Agora vamos embora, não temos mais nada
a fazer aqui.
Ao cair
da noite os dois contaram o que lhes havia acontecido no raiar do dia, mas
claro que ninguém acreditou, pensaram que era apenas mais uma história de
caçador, como tantas que se ouvia por aí.
O
pequeno e franzino Guiller Harry estava sentado a beira de um lago pensando no
que faria, seu pai era um Reuroreig Guardião famoso dentre os seus.
Guilhermo
Harry era um guardião com três estrelas, não é chamado de Guilhermo era chamado
de Dir-Gui um dir-Reuroreig o terceiro nível na federação dos maiores combatentes
de todo o continente de Netórious. Ele era perito em martelo de duas mãos.
E
por conta disso desde que se entendeu por gente Guiller recebia o peso de ser o
sucessor de seu pai, o filho de Dir-Gui seria tão forte quanto o pai, seria um
Reuroreig guardião de marca maior, mas agora com quase treze anos – idade em
que os jovens entram para as academias principais – e com corpo muito franzino,
isso não parecia ser possível. Sem contar que ser um guardião não era a
intenção de Guiller, ser sentinela parecia ser mais interessante pra ele.
-
O que está acontecendo meu filho? – perguntou sua mãe que ele nem a ouviu
chegar por estar tão absorto em seus pensamentos.
Ele
assustou-se ao lado dele olhando para o horizonte onde o céu estava alaranjado
por conta do sol que estava prestes a se por.
-
Oi mãe. – disse Guiller com voz trêmula.
-
O que você tem meu filho? Tenho visto você meio triste nos últimos dias, quer
conversar?
Guiller
precisava falar com sua mãe sobre o que estava pensando, mas como faria, ele
sabia a regra de não haver segredo entre seus pais, entre a família na verdada,
eles conversavam sobre tudo e qualquer coisa que o pequeno Harry dissesse a sua
mãe, logo chegaria aos ouvidos do grande Dir-Gui.
-
Fala meu filho – o abraçou de lado – vamos resolver essa situação.
Que se dane Pensou ele.
-
Eu não quero ser um guardião – as lágrimas começaram a rolar por sua face –todos
esperam que eu seja, mas não tenho nem um físico adequado pra isso. Olha pra mim
mãe – apontou pra si – o papai nessa idade já tinha um físico que mostrava para
o que ele tinha vindo. – Vez uma breve pausa para limpar o secreção que estava
saindo das narinas e enxugar as lágrimas – a maioria dos garotos que vão para a
academia Reuroreig tem uma complexidade física maior do que a minha.
-
E o que você que fazer?
-
Eu quero ser um sentinela, quero ir pra academia de Lutter.
Lisa
segurou o rosto de seu filho, olhou em seus olhos. Enxugou as lágrimas dele com
seus polegares e deu um sorriso acolhedor.
-
Não se preocupa com isso seu bobo.
-
Mas mãe eu sei que é isso o que o papai espera de mim.
-
Quem te disse isso meu amor? – Ela falava com cada vez mais ternura.
-
Todos dizem isso.
-
Todos menos o seu pai e sua mãe.
Guiller
sentiu-se confuso.
-
Meu filhote você é livre para escolher a academia que quiser, e se você quiser
ir para Kal-Han em No-han para se tornar um Dunster, eu e seu pai nos mudaremos
para lá. Tudo o que queremos é a sua felicidade, e se você não quiser entrar em
nenhuma academia e seguir outra profissão estaremos completamente de acordo.
-
A senhora está mesmo falando a verdade?
Ela
se limitou a sorrir antes de responder:
-
Vim lhe chamar para jantar, seu pai acabou de chegar de viagem e está cheio de
fome e histórias para contar – Pôs-se de pé e limpou a parte de trás de seu
vestido – Na mesa conversaremos com seu pai sobre, e você vai ver o quanto está
errado.
Lisa
esticou a mão para ajudar seu filho a levantar. Ela já estava sorrindo mais
tranquilo.
Na
mesa de jantar a princípio Lisa não deu abertura para o pequeno falar, estava
ouvindo as novidades sobre a viagem do dir-guardião Gui.
Que
seu grupo foi atacado no meio do caminho de volta, mas que seus atacantes não
foram páreos para ele, com seu imenso martelo de duas mãos, girando e quebrando
os ossos de seus inimigos que não tinham sequer a chance de se defender.
Guilhermo
tinha um jeito muito animado de falar e conseguia transforma uma cena ainda que
brutal em algo meio que hilário.
E
assim seguiu-se o jantar, mas foi quando Lisa trouxe a sobremesa – um pudim de
coco – foi que Guller sentiu suas mãos gelarem, um frio no estômago e um filete
de suor gelado descer por sua têmpora.
-
Nosso filho tem algo pra te contar amor. – Informou Lisa a seu marido.
-
Opa, que bom saber que meu magrelo tem novidades. – Ele saiu do lugar que
estava sentado para se sentar em uma cadeira ao lado de seu filho – O que mandas
campeão?
-
Eu... Eu... – as palavras não saiam, estava muito nervoso e com medo de
decepcionar seu grande herói.
-
Apenas fale meu filho – assim como sua esposa, Gui também sorria de uma forma
muito amável para seu filho.
-
É que eu não quero ser guardião – Ele falou de cabeça baixa e o fim da frase
saiu quase inaudível.
-
Fale olhando para mim – Pediu Gui duramente.
Ele
levantou a cabeça e repetiu agora com um pouco mais de força.
-
Eu não quero ser um guardião, quero ser um sentinela da academia Lutter.
Gui
levantou-se abruptamente e deu um abraço apertado em seu filho tirando-o da
cadeira:
-
Que bom que você escolheu a tempo o que queria ser magrelo.
O
aperto chegou a doer.
O
dir-guardião largou seu filho e o mesmo meio que caiu na cadeira.
-
O senhor não está chateado comigo?
-
Lhe falei que era bobagem você se preocupar – interpelou Lisa entregando um
pratinho para cada um com uma fatia de pudim.
Os
pais se cumprimentaram dando um selo rápido nos lábio e então Gui prosseguiu:
-
É claro que é bobagem meu filho, vou lhe dizer uma coisa – nesse instante ele
inclinou-se mais para frente – quando entrei pra academia Reuroreig, entrei por
que meus pais queriam e eu não sabia o que queria fazer, mas como eu já estava
lá por que não executar meu trabalho com perfeição? Depois de um tempo eu quis
ser um monte de coisa, mas como eu já estava lá...
-
Então o senhor não gosta do que faz?
-
Gosto e muito, mas comecei perdido e fiz dando o meu melhor, mas de forma meio
que vazia, sem saber ao certo para onde ir – Lisa passou por eles e foi puxada
para sentar no colo de seu marido – foi quando conheci a sua mãe que eu me empenhei
mais ainda em bancar o pavão com as melhores penas. Isso claro eu já tinha meus
dezenove pra vinte anos.
-
Bobo – disse Lisa aplicando outro beijo rápido em seu marido – Seu pai já tinha
uma estrela quando eu o conheci, mas não era o único. Depois de saber que havia
outros interessados em mim começou a entrar nas piores missões e por fim ao
ganhar a segunda estrela e ser o único a fazer essa proeza tão jovem teve todo
o respeito dos meus pais e me pediu em casamento. Mas claro que já estávamos namorando
muito antes dos meus pais saberem.
-
Ta vendo magrelo, se quer ganhar uma disputa tenha mais de uma estrela em sua
licença.
-
Até parece que eu só fiquei contigo por causa das suas estrelas. – Retrucou Lisa
sorrindo e dando um tapa de leve no braço do seu marido.
-
Você não, mas seus pais só deixaram porque eu era o melhor.
Ela
limitou-se a abanar a cabeça negativamente sorrindo de leve:
-
Como eu te disse mais cedo meu filho – continuou Lisa – estamos aqui para lhe
apoiar, e se você quisesse treinar em outra cidade, nós daríamos um jeito de te
mandar para lá e em seguida nos iriamos juntos.
-
É, por que o crédito de um federado de três estrelas nunca fica vazio. –
Brincou Guilhermo.
Todos
riram.
-
E o senhor não vai ficar com vergonha?
-
Por que eu ficaria?
-
Porque a academia Lutter além de ser fundada por uma mulher, a maioria dos
frequentadores são meninas.
-
Meu filho é muita estupidez alguém achar uma arte fútil só porque foi
desenvolvida por uma mulher. E se alguém falar alguma coisa sobre meu filho
querer ser um Lutter, vai ter que se ver comigo.
Guiller
apensa sorriu feliz por ter o apoio do seu herói.
Terminaram
a noite ouvindo mais sobre a viagem do homem da casa.
Duas
semanas depois, no dia da inscrição nas academias Dir-Gui fez questão de vestir
sua armadura de batalha com martelo na costa e ir junto de seu filho.
-
Academia dos guardiões é claro – Afirmou o escriba.
-
Negativo – respondeu o guardião de três estrelas por trás de seu filho com as
mãos apoiadas em seu ombro. – Ele vai para academia de sentinelas Lutter, E
qualquer um que ache isso desonroso – agora ele falava para todos ali – que
venha falar comigo.
O
hall ficou silencioso, as pessoas evitavam até expressar qualquer coisa.
O
silencio foi quebrado pelo escriba que pediu para Guiller assinar o seu nome no
livro de inscrições do qual ele assinou, com muito orgulho e satisfação pois
seria um sentinela e seria uma lenda assim como seu pai.
Sabe...
Estou muito feliz por enfim realizar mais um sonho que tínhamos; um cruzeiro
transatlântico.
Lembro
como começamos... Como nos conhecemos; você derramou um milk-shake em meu
sapato novo e todo nervoso me pediu desculpas, se apresentou, disse que como
bom cavalheiro que era me pagaria, naquele mesmo instante, sapatos novos, e o
fez. E em seguida um jantar.
Você
era um cabeçudo estabanado, sempre foi, há coisas que nunca mudam.
Lembro-me
do jeito que me pediu em namoro... Eu estava tendo um dia bem estressante e de
repente enquanto ainda nos falávamos por telefone, você me mandou para abrir a
porta e lá estava você, com um buquê de rosas vermelhas, ajoelhado e me
perguntando se eu queria namorar contigo. Me debulhei em lágrimas te levantei,
deu um beijo molhado – por conta das minhas lágrimas – e disse sim várias e
várias vezes.
Sempre
me lembro de como você cuidava de mim, principalmente quando eu estava naqueles
dias... Fazia brigadeiro, levava para mim na cama e botava algum filme romântico
bobo que eu gostasse. Ficava me fazendo cafuné até eu dormir. Só era chato
acordar de madrugada e ver que meu amor não estava comigo, mas deveras eu ainda
morava com meus pais.
Foi
engraçado a primeira vez que você dormiu comigo quando ainda morava com meus
pais. Isso aconteceu porque nem eu sabia que você tinha dormido comigo, nessa
noite eu estava muito gripada e como sempre, ficou cuidando de mim ate eu
dormir. Dessa vez eu não acordei de madrugada, dormi a noite inteira e pela
manhã quando desci para tomar café, para minha completa e feliz surpresa, lá
estava você na cozinha, preparando algo para toda a família:
-
Ô meu amor, achei que ia dar tempo de levar pra ti na cama. - me disse olhando
com seus olhos brilhantes e com o sorriso mais lindo que eu tinha visto até te
encontrar.
-
O que houve? - perguntei indo até meu amado e lhe dando um selo na boca.
-
Ah eu pedi pra ele dormir aqui, já estava muito tarde para ele ir pra casa
dele. - respondeu minha mãe.
-
Só não pode virar hábito, mas sendo uma vez ou outra não vejo problema. -
emendou meu pai com tom de voz não tão seco.
-
Senta amor - me pediu com carinho - já te sirvo.
Naquele
instante, já sentada na mesa, vendo-o conversando tão alegremente com meus
pais, de vez em quando olhando para mim amavelmente e me dando uma piscada com
um olho só, percebi que o queria para vida inteira, percebi que queria estar
contigo todos os dias pelo resto da minha vida, que todas as manhãs fosse como aquela para sempre.
E
você com certeza também queria isso, pois seis meses depois me pediu em
casamento no mesmo dia em que entrei para a faculdade.
Saímos
juntos da minha família e alguns amigos e ali no restaurante com karaokê você
subiu no palco cantou - não tão bem, mas o que vale é a intenção - a minha
música preferida e me fez o pedido ali mesmo para todos verem. Claro que senti
muita vergonha, mas só uma louca não aceitaria casar com um homem tão
maravilhoso como só você, meu homem maravilho.
Ah
meu amor e o nosso casamento... Que lindo que ele foi com flores...
Música...Você cantando para mim mais uma vez - agora um pouco mais afinado...
Nossos amigos... Depois nós dançando juntos, com nossas testas coladas uma na
outra, sorrindo e chorando...Sim foi um dia inesquecível...
Assim
como o dia em que nossos filhotes nasceram, gêmeos, Ângelo e Ana Beatriz. Chego
a rir toda vez que me lembro o quanto você chorou desenfreadamente ao
segurá-los nos braços a primeira vez e depois... Nós choramos junto, cada um
com um bebê, novamente tete à tete...
E
nossas vidas seguiram melhor que eu imaginava... Tudo perfeito, perfeito do
nosso jeito. E acredite, apesar de todas as brigas - e havia épocas em que
brigávamos bastante, e o palhaço de sempre fazia piadas e gracinhas para
contornar, e voltarmos aos eixos - sim estava perfeito.
E
suas noitadas com seus amigos, e as minhas com os meus, sempre nos rendendo
histórias hilárias, sem contar as que estávamos juntos, e você sempre dava uma
ratada e era motivo de chacota...
Nossas
longas discussões sobre a vida o universo e tudo mais, ou quando filosofávamos
sobre qualquer coisa sem sentido...
Ahahahahahahahahahahahahah...
Como me divirto lembrando disso amor.
Hoje
faz exatamente vinte e cinco anos que nos conhecemos e começamos essa história,
mas hoje também faz cinco anos do nosso último jantar... Da nossa última noite
de amor... Da última vez que lhe vi sorrir pra mim com aqueles olhos brilhantes
que tinha desde que te conheci e que nunca mudou... Cinco anos que não ganho
seu abraço que me tirava do chão... Tão apertado... Tão caloroso... Tão cheio
de amor com um único gesto... Cinco anos que não me dá flores... Não me escreve
poemas toscos e sem sentido, mas que eu sempre amei receber... Hoje faz cinco
anos que nossos filhos não são beijados carinhosamente pelo pai... Eles já
estão na faculdade... Na faculdade minha vida e sentem muito sua falta, assim
como eu sinto.
Cinco
anos que você partiu em uma viagem a negocio para conseguir de nossa
aposentadoria antecipadamente com um negócio milionário – para fazermos essa
viagem que estou fazendo hoje – e realizarmos todos os outros sonhos que ainda
estavam faltando.
Hoje
faz cinco anos que seu avião caiu nesse oceano e você nunca mais voltou pra
casa, mas estou aqui, realizando o sonho por nós dois porque eu sei que é isso
que você queria que eu fizesse. E espero que cumpra sua promessa de quando
partíssemos desse mundo, dessa vida, você me procuraria no próximo mundo, em
nossa próxima vida.