Lembranças
Sabe...
Sempre lembro-me de uma fatídica noite da minha infância, que por muito tempo me causou dor lembrar, e que faz pouco tempo que consegui fazer parar de doer.
Demorei muito para entender que não adiantava eu me martirizar pelo que havia acontecido, que eu não poderia ter feito nada, que provavelmente se eu tivesse feito algo só teria piorado a situação.
Eu tinha oito pra nove anos quando aconteceu, estava deitado em uma rede, havíamos acabado de chegar de um aniversário e minha mãe, como sempre, estava bem irritada, aquele era seu estado normal.
Tratei de me deitar logo justamente por medo, aquele medo que beirando o terror, sabe aquele suspense que sentimos, quando o monstro está espreitando o protagonista de um filme, e você se segura na cadeira com receio do que está pode vir? Aquele arrepio na espinha que lhe agarra e diz que não vai embora? Pode parecer exagero, mas era mais ou menos isso que eu estava sentindo, com medo que minha ela se virasse para mim com toda aquela ira.
“Fique imóvel...
Seja invisível aos olhos dela...
Finja que está dormindo...
Respire bem lentamente...
Ela não vai fazer nada se você estiver quietinho...”
E foi quando o primeiro baque surdo fez-se ouvir, acompanhado de um grito agudo de dor, não foi atrás de mim que o monstro veio, foi atrás do meu irmãozinho.
Naquele momento a ferida se abriu, com oito pra nove anos, meu cérebro e meu coração ficaram marcados.
Você deve estar se perguntando porque a dor se eu não fiz nada?
Exatamente... Eu não fiz NADA enquanto meu irmãozinho, aquele que eu deveria proteger a qualquer custo, apanhava violentamente...
Não fiz NADA enquanto ouvia o baque surdo do tamanco acertando-o.
Eu queria fazer algo... Queria agir... Fazê-la parar... Não era certo o que ela estava fazendo... Me imaginei levantando da rede e pedindo para parar... Mas não consegui fazer... Meu corpo travou... E tudo que conseguia foi permanecer imóvel... Me tornar imperceptível para não apanhar junto. O que vinha a ser conflitante, já que eu queria que parasse.
Acovardei-me diante da situação, tive a vontade, mas não tive a coragem...
E assim permaneci...
Quieto...
Quase sem respirar...
Invisível...
E com lágrimas escorrendo pelo face.
O que passei trinta anos pensando foi, foda-se se eu era uma criança, eu deveria ter feito algo, me levantado, gritado, feito-a direcionar sua raiva a mim e esquecer dele.
Mas hoje vejo que de nada adiantaria.
O que ela teria feito se eu tivesse agido?
Provavelmente me batido, canalizado a raiva dela em mim, e assim eu teria feito meu papel de irmão mais velho, proteger o mais novo.
No entanto, meus estudos no ramo da psiquê humana, me mostraram que eu teria piorado as coisas, se eu tivesse desafiado-a e tentado fazê-la virar-se para mim, a probabilidade maior é de que ela tivesse ficado com mais raiva, batido com mais força nele, só para mostrar que ela quem mandava e fazia o que queria, e só depois se voltaria para mim.
Não vou dizer que realmente havia deixado de pensar no que aconteceu, pois isso nunca vai acontecer, mas compreendi minha impotência, e já não doía tanto.
Hoje novamente estou com essa sensação, uma nova ferida acaba aparecer... Nesse instante, com olhos cheios de lágrimas, olho para um caixão, onde o meu amado irmãozinho que não nunca consegui proteger, está deitado.
Ele morreu em um tiroteio com a polícia, e não estava do lado dela.
E novamente estou me sentindo culpado, pensando que deveria ter feito algo por ele, que deveria tê-lo protegido, pois essa é a obrigação de um irmão mais velho, mas mais uma vez não aconteceu, na verdade nunca aconteceu, crescemos distantes, não tive a oportunidade de me redimir, e não terei mais.
Sei que é idiota pensar dessa forma, sei que nem a trinta anos atrás, nem agora eu poderia ter feito algo, mas ainda assim essa ideia me persegue. Esse sentimento de culpa novamente se aloja em mim e jura que não vai embora.
É irracional pensar assim, no entanto eu poderia ter feito algo.
Mas o que?