Escritos vivos
1 - O devorador
“E onde houver
corpos desmembrados, em estado de putrefação, ou apenas corpos sem vida, lá
estará O Devorador, olhando para essa paisagem infernal como um belo banquete”
O homem de pele negra e cabelos longos com dreadlock,
entrou no cemitério a procura de uma criação sua, O Devorador.
Era possível ouvir, mesmo de longe, o som que lembrava um
lobo devorando as entranhas de sua presa, ou mesmo de porcos comendo.
“É ele” pensou e continuou a caminhar agora
seguindo o som.
O homem usava um casaco longo - na altura dos joelhos - da
cor preta, por baixo, uma camisa branca e uma gravata vermelha, calça de tecido
oxford também preto assim como seus sapatos de bico quadrado.
Há poucos metros da entrada, jazia um homem no chão, com sinais
de espancamento, mas não estava morto, e ao lado dele um rastro lilás.
Andou mais um pouco em direção ao som nojento de carne
sendo rasgada e mastigada, grunhidos e outros sons nada agradáveis.
Ao passar por uma árvore, o escritor se deparou com Ele, O Devorador, que parou o que estava
fazendo, deu um sorriso que lembrou o sorriso do gato de Cheshire da obra
“Alice no País das Maravilhas”, expôs todos os seus dentes serrilhados e com um
pedaço de pele entre eles.
- O senhor veio me buscar? - perguntou a criatura
praticamente grunhindo.
- Sim - fez uma breve pausa enquanto admirava a sua
criação - Eu vim lhe buscar - Já tirando de dentro de seu casaco uma caneta
tinteiro prateada e de ponta dourada.
O Devorador tinha
uma aparência bizarra, quase dois metros de cumprimento, cheio de braços e
pernas humanas que saiam das laterais de seu corpo, mas não funcionais, tinha cabeça de cachorro, mas
com seis olhos, sua mandíbula tinha uma abertura de praticamente um metro,
pelos roxos com as pontas lilás e lisos e um focinho bem alongado.
Arrastou-se até próximo do escritor e perguntou:
- O senhor poderia ao menos deixar eu terminar essa última refeição? - sorriu novamente tentando ser simpático, que foi como ele foi criado para ser.
- O senhor poderia ao menos deixar eu terminar essa última refeição? - sorriu novamente tentando ser simpático, que foi como ele foi criado para ser.
O escritor sorriu antes de responder:
- Sim pode.
- Sim pode.
Após colocar uma longa língua lilás para fora e lamber a
mão de seu criador, o ser voltou até o cadáver que já havia quase terminando de
devorar as entranhas.
O humano aproximou-se um pouco mais, não sentia nojo,
trabalhou um tempo como médico legista, estava acostumado com aquela visão, sem
contar os vários livros de horror e terror que ele leu e escreveu.
- Senhor... Afinal... Por que... Me criastes? - perguntou
enquanto comia algo que parecia ser um rim.
O escritor baixou a cabeça sentindo-se envergonhado e ao
mesmo tempo triste.
- O criei para ser fiel companheiro de um demônio caçador
de demônios.
- O senhor... - mastigava enquanto tentava falar - Está...
Falando de Ar...Kage - mal foi possível entender as últimas sílabas.
- Sim, dele mesmo. - Enfim respondeu.
Aquela conversa estava começando a incomodando o escritor, que tinha
certos critério de educação um tanto quanto fora dos padrões atuais, coisas do
tipo dobrar o lenço e apenas tocá-lo nos lábios, comer de boca bem fechada e
sem fazer barulho, segurar corretamente os talheres e após comer pô-los da
forma correta no prato vazio... Coisa que muitos considerariam frescura.
Ver sua criação comer daquela forma estava lhe dando nojo, o que chegava a ser bizarro já que era por conta da forma como o
animal se alimentava e não do que ele se alimentava.
Novamente um sorriso bizarro:
- Eu o vi, apenas uma vez, mas ele me mandou fugir porque sabia que o senhor viria atrás de nós – fez uma pequena pausa para engolir, sorrindo em seguida - e que se caso eu não conseguisse fugir eu deveria tentar matar o senhor.
- Eu o vi, apenas uma vez, mas ele me mandou fugir porque sabia que o senhor viria atrás de nós – fez uma pequena pausa para engolir, sorrindo em seguida - e que se caso eu não conseguisse fugir eu deveria tentar matar o senhor.
- E por que você não vai fazer o que ele disse?
- Porque o senhor é o nosso criador, se o senhor acha que
não devo existir, é porque não devo.
Voltou a sua refeição.
O escritor começou a sentir pena daquela criatura que
apesar de horrenda e de preferência alimentícia estranha, de forma alguma era
um ser maligno, a maior prova disso, era o segurança que permanecia vivo,
apesar de bem machucado.
O Devorador
arrotou alto, tão alto que ecoou pelo cemitério.
O escritor quase se retorce por conta disso.
- Acabei senhor - novamente aquele sorriso, agora cheio de
restos de vísceras presas entre os dentes - o senhor já pode me apagar. -
arrastou-se novamente até o homem - Se não for pedir muito, o senhor poderia
acariciar um pouco a minha cabeça? O senhor me fez raciado com cachorro, e nós
gostamos de uma coçadinha atrás da orelha.
“Cachorro, tubarão, o gato de Cheshire, uma massa de
corpos humanos disformes, com pelos lilás ou roxo e com desejos de comer apenas
carniça.” Pensou o criador sentindo-se com cada vez menos vontade de dar fim
aquela criação, mas se fazia necessário.
- Deite-se Bengt.
- Esse é meu nome?
- Sim esse é o seu nome. – respondeu de forma tenra a seu
criação.
- Eu gosto dele senhor. - apensar da voz de Bengt mal
passar de grunhido, ele parecia estar feliz naquele instante.
- Eu sei que gosta.
Ele deitou-se.
O escritor agachou-se e começou a coçar a cabeça do animal
que ficara relaxado. Na mão esquerda encontrava-se a caneta que ele cravara em
seguida no pescoço de sua caça.
Ele se debatera um pouco, teve pequenos espasmos, mas sua
expressão apenas passava a impressão de estar curtindo as carícias que estava
recebendo, enquanto era absorvido para dentro da caneta.
Ao terminar, com os olhos marejados, o homem levantou-se e
seguiu caminhando lentamente para fora do cemitério. Em sua mão esquerda, ainda
pingando tinta lilás, estava a caneta, que ele usou para por um fim em uma de
suas criações que ele tanto amou ao ponto de dar-lhe vida.
Em seu peito ainda pulsava o desejo de sair dali com Bengt
como um parceiro, assim como era de Arkage nos livros que o homem escreveu.
O que o homem de preto não percebeu foi que outra de suas
criações estava ali, e este estava debulhando-se em lágrimas pelo triste fim de
seu companheiro que ele mal conheceu.
By
Dante Saboia
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