Ele
corria desenfreado pela floresta.
- Mundus me ajuda. - gritou.
- Mundus me ajuda. - gritou.
O
horror estava estampado em seu rosto, o que o caçava estava em seu encalço e
tudo o que ele conseguia pensar - além de conseguir fugir de seu predador - era
em sua família.
Sua
esposa que provavelmente estava à espera dele em sua cabana com o jantar. Ah
como ela é boa para ele, como o cuida com tanto carinho, como nunca alguém
antes o fez.
Ele
mesmo estava estranhando estar pensando naquilo justamente naquele momento,
pensando nas massagens que as vezes recebia... Em como ela o catava com tanta
paciência, ou das vezes que lhe dava de comer na boca.
Lembrava-se de como era sempre
recebido com um belo sorriso e um abraço terno, seguido de um roçar de rosto e
as vezes de nariz.
E lembrar-se
de sua recepção ao chegar em casa lembrou-se também que provavelmente não veria
mais o rostinho lindo e liso de sua cria, pequena ainda, mal conseguia pôr-se
de pé, sempre que ele chegava a pegava nos braços e brincava um pouco enquanto
o jantar era preparado.
Pensar
que ele não poderia vê-la crescer lhe doía muito. A ideia de não poder ver sua
cria crescer forte e saudável, vê-la tornar-se uma caçadora forte e destemida,
talvez até a líder de seu próprio bando, e um dia procriar, doía muito.
O
barranco que o livraria enfim do seu caçador estava logo a frente, havia um
segredo para atravessá-lo, um pequeno detalhe que ainda que todos vissem não
adiantaria, era o tipo de coisa que você tinha que saber realmente fazer e
exigia um treinamento que ele teve, dado por sua mãe.
Já
estava sentindo o alívio, seu coração já estava cheio de esperança, já estava lembrando
com satisfação, chegou até a pensa que naquela noite ele acasalaria com sua
companheira.
Ouviu
um som alto que ecoou pela floresta, e junto do som uma um impacto acompanhado
de dor lancinante mais precisamente do lado esquerdo.
Ele foi
arremessado barranco abaixo, e aquele sim foi o momento em que lhe bateu o
desespero... Ele rolou desajeitadamente, seu corpo foi ralando nas pedras, sua
cabeça bateu com força em uma rocha abrindo uma fenda, ossos foram se partindo,
e ele não parou de rolar.
Subiu
um pouco pelo impulso da queda e caiu com a coluna em uma rocha, ele grunhiu, e
continuou a cair, e agora de um segundo barranco que o fez cair de pé quebrando
suas duas pernas, agora ele gritou, e continuou a queda.
Mais
uma vez teve seu corpo tirado do chão e caiu de costa em um grupo de rochas que
meio que formava um ninho, e ali ele estacionou, era o fim da queda.
Estava com várias lacerações pelo
corpo, vários ossos quebrados, e sem sentir a parte de baixo de seu corpo.
Ele via
o fogo chegando de cabeça para baixo, seu corpo pendia para fora do grupo de
rochas ameaçando cair, mais um pouco e ele poderia se perder no rio Devorador
que passava um pouco mais abaixo.
Ainda
tinha um pouco de consciência, mas nenhuma esperança, ainda que sobrevivesse,
não passaria de um estorvo para todos os seus.
Ouviu
sons vindo de cima, sons que ele não conseguia distinguir o que era, podia até
mesmo ser sons vindos de sua própria cabeça já bem avariada. De qualquer forma
o som estava se aproximando, pareciam gritos, e agora era mais de um.
Ele
entendeu que aquilo queria dizer que eles estavam indo a seu encontro, e ele
preferia a morte ao ser pego.
Murmurou
pedindo que Mundus protegesse a sua família e os seus, e que o recebesse de
braços abertos do outro lado. A luz do sol começou a aparecer, nascendo no horizonte,
e com ele o corpo do macho quase morto começou a entrar em combustão, em meio a
sons jamais ouvidos antes.
Os dois
homens que desciam o barraco com pressa, já menos preocupados pois o sol
começava a mostrar sua face. Assustaram-se ao ouvir o ser esturrar seguindo de
um som jamais ouvido por eles antes, algo agudo, que lhe invadia o corpo e lhe
causava aquele frio na espinha, uma mistura de dor e sabe-se lá Deus o que
mais.
A última coisa que viram, foi o
ser entrar e combustão assim que a luz do sol o tocou. Ficaram em silêncio
alguns instantes, até que as cinzas foram carregadas pelo vento matinal.
- O que
diabos era aquilo Aluísio? – perguntou a seu amigo incrédulo.
- Eu
não faço ideia. – respondeu Aluísio tentando processar o que acabou de presenciar.
- E por
que tu atirou nele?
-
Fiquei com medo e também a queria em minha coleção.
- É o
que?
- Ele
tinha pelo em quase todo o corpo e onde não tinha pelo, a pele era lisa e quase
transparente, apesar de bizarro era um belo ser para empalhar e expor, quem
sabe até ganhar um prêmio.
- Você
chega a me dar repulsa meu caro colega. Agora vamos embora, não temos mais nada
a fazer aqui.
Ao cair
da noite os dois contaram o que lhes havia acontecido no raiar do dia, mas
claro que ninguém acreditou, pensaram que era apenas mais uma história de
caçador, como tantas que se ouvia por aí.