segunda-feira, 2 de maio de 2016

Você não vai acreditar



                Ele corria desenfreado pela floresta.
                - Mundus me ajuda. - gritou.
                O horror estava estampado em seu rosto, o que o caçava estava em seu encalço e tudo o que ele conseguia pensar - além de conseguir fugir de seu predador - era em sua família.
                Sua esposa que provavelmente estava à espera dele em sua cabana com o jantar. Ah como ela é boa para ele, como o cuida com tanto carinho, como nunca alguém antes o fez.
                Ele mesmo estava estranhando estar pensando naquilo justamente naquele momento, pensando nas massagens que as vezes recebia... Em como ela o catava com tanta paciência, ou das vezes que lhe dava de comer na boca.
Lembrava-se de como era sempre recebido com um belo sorriso e um abraço terno, seguido de um roçar de rosto e as vezes de nariz.
                E lembrar-se de sua recepção ao chegar em casa lembrou-se também que provavelmente não veria mais o rostinho lindo e liso de sua cria, pequena ainda, mal conseguia pôr-se de pé, sempre que ele chegava a pegava nos braços e brincava um pouco enquanto o jantar era preparado.
                Pensar que ele não poderia vê-la crescer lhe doía muito. A ideia de não poder ver sua cria crescer forte e saudável, vê-la tornar-se uma caçadora forte e destemida, talvez até a líder de seu próprio bando, e um dia procriar, doía muito.

                O barranco que o livraria enfim do seu caçador estava logo a frente, havia um segredo para atravessá-lo, um pequeno detalhe que ainda que todos vissem não adiantaria, era o tipo de coisa que você tinha que saber realmente fazer e exigia um treinamento que ele teve, dado por sua mãe.
                Já estava sentindo o alívio, seu coração já estava cheio de esperança, já estava lembrando com satisfação, chegou até a pensa que naquela noite ele acasalaria com sua companheira.
                Ouviu um som alto que ecoou pela floresta, e junto do som uma um impacto acompanhado de dor lancinante mais precisamente do lado esquerdo.
                Ele foi arremessado barranco abaixo, e aquele sim foi o momento em que lhe bateu o desespero... Ele rolou desajeitadamente, seu corpo foi ralando nas pedras, sua cabeça bateu com força em uma rocha abrindo uma fenda, ossos foram se partindo, e ele não parou de rolar.
                Subiu um pouco pelo impulso da queda e caiu com a coluna em uma rocha, ele grunhiu, e continuou a cair, e agora de um segundo barranco que o fez cair de pé quebrando suas duas pernas, agora ele gritou, e continuou a queda.
                Mais uma vez teve seu corpo tirado do chão e caiu de costa em um grupo de rochas que meio que formava um ninho, e ali ele estacionou, era o fim da queda.
Estava com várias lacerações pelo corpo, vários ossos quebrados, e sem sentir a parte de baixo de seu corpo.
                Ele via o fogo chegando de cabeça para baixo, seu corpo pendia para fora do grupo de rochas ameaçando cair, mais um pouco e ele poderia se perder no rio Devorador que passava um pouco mais abaixo.
                Ainda tinha um pouco de consciência, mas nenhuma esperança, ainda que sobrevivesse, não passaria de um estorvo para todos os seus.
                Ouviu sons vindo de cima, sons que ele não conseguia distinguir o que era, podia até mesmo ser sons vindos de sua própria cabeça já bem avariada. De qualquer forma o som estava se aproximando, pareciam gritos, e agora era mais de um.
                Ele entendeu que aquilo queria dizer que eles estavam indo a seu encontro, e ele preferia a morte ao ser pego.
                Murmurou pedindo que Mundus protegesse a sua família e os seus, e que o recebesse de braços abertos do outro lado. A luz do sol começou a aparecer, nascendo no horizonte, e com ele o corpo do macho quase morto começou a entrar em combustão, em meio a sons jamais ouvidos antes.
                Os dois homens que desciam o barraco com pressa, já menos preocupados pois o sol começava a mostrar sua face. Assustaram-se ao ouvir o ser esturrar seguindo de um som jamais ouvido por eles antes, algo agudo, que lhe invadia o corpo e lhe causava aquele frio na espinha, uma mistura de dor e sabe-se lá Deus o que mais.
A última coisa que viram, foi o ser entrar e combustão assim que a luz do sol o tocou. Ficaram em silêncio alguns instantes, até que as cinzas foram carregadas pelo vento matinal.
                - O que diabos era aquilo Aluísio? – perguntou a seu amigo incrédulo.
                - Eu não faço ideia. – respondeu Aluísio tentando processar o que acabou de presenciar.
                - E por que tu atirou nele?
                - Fiquei com medo e também a queria em minha coleção.
                - É o que?
                - Ele tinha pelo em quase todo o corpo e onde não tinha pelo, a pele era lisa e quase transparente, apesar de bizarro era um belo ser para empalhar e expor, quem sabe até ganhar um prêmio.
                - Você chega a me dar repulsa meu caro colega. Agora vamos embora, não temos mais nada a fazer aqui.


                Ao cair da noite os dois contaram o que lhes havia acontecido no raiar do dia, mas claro que ninguém acreditou, pensaram que era apenas mais uma história de caçador, como tantas que se ouvia por aí.