quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Viva em Mim



            O homem grande – tanto em altura quanto em largura – estava sentado bebendo uma dose de whisky. Estava sozinho observando o que acontecia ao seu redor.
            A mulher dançando no palco. Homens olhando pra ele de forma curiosa. Mulheres passando servindo mesas. Mulheres com pouca roupa em busca de clientes.
            Observar essas coisas tirou a atenção dele ao ponto dele não perceber a aproximação de duas pessoas, quando se deu conta o casal já estava sentado nas cadeiras vazias de sua mesa.
            Ele tinha um bom porte físico. Seus cabelos eram prateados e seus olhos azuis safira. Ela já era um pouco mais baixa, mas com corpo atlético. Seus cabelos eram castanho escuro, e estavam curtos. Seus olhos eram âmbar. Bisone os conhecia.
            - Lupu e Lepore. – cumprimentou Bisone dando uma golada em seu whisky. – O que os traz aqui?
            - Eles nos procuraram. – respondeu Lupu.
            - E vocês acharam melhor nos trair. – concluiu Bisone metendo a mão dentro de sua jaqueta de couro preta e tirando uma carteira de cigarros mentolados.
            - Não é trair – começou Lepore – apenas queremos conversa e te mostrar que esse é a melhor opção. Eles têm como controlar nossos impulsos.
            - Foi isso que te disseram? Aposto que foi o que disseram a Protelo. – Acendeu o cigarro e deu uma tragada profunda – antes de meterem sei lá quantas balas nela.
            - Ela já estava descontrolada, tu ainda não tá. – disse Lupu olhando seriamente para seu conhecido.
            - Eu me lembro dos absurdos que tu fazia cara. – comentou Bisone fazendo uma pausa para dar outra tragada.
            - Pra ti ver como estou melhor.
            - Não vem com esse papo pra cima de mim Lupu, tu é um animal sanguinário e vem me dizer que se reabilitou? – Deu uma longa tragada e soprou a fumaça de seus pulmões – Tenha dó.
            - Não dificulta as coisas, por favor. – pediu Lepore segurando a mão de seu antigo colega – Queremos que isso acabe bem.
            - Vocês vão ter que me matar – disse Bisone virando a mesa em cima dos dois em seguida correndo para a porta dos fundos.
            Lupu sacou seu revolver, era uma Magnum 44 maior do que o normal. Ele fez mira em Bisone, mas Lepore baixou a mão do mesmo impedindo que ele atirasse ali dentro:
            - Nada de civis feridos.
            Apesar do tiro não ter sido disparado, o pânico foi instaurado, tanto por Bisone ter corrido atropelando quem estivesse em sua frente, quanto pelo fato de Lupu ter sacado um revolver muito maior do que muita gente já viu ou irá ver na vida.
           
A dupla também correu para a porta dos fundos. Em meio a todo esse alvoroço havia um jovem sentado assistindo ao que estava acontecendo com um sorriso nos lábios. Ele tinha a pele bem clara. Cabelos prateados e ondulados na altura dos ombros. Assim que os três causadores do alvoroço saíram, o jovem foi logo atrás lenta e calmamente.
           
Lepore abriu a porta logo pouco depois de Bisone, e ele a estava esperando do outro lado em um beco largo. Assim que ela surgiu o homem imenso aplicou uma cabeçada que a mandou de volta para dentro da boate.
Lupu viu sua parceira ser catapultada, mas não se importou se a mesma se machucou, a captura de Bisone era mais importante. Atravessou a porta.
Ela foi aparada pelo  jovem que estava seguindo os três.
            - Calma docinho, sei que sou bonito, mas não precisa se jogar aos meus pés. – disse o jovem com Lepore no colo.
            - Obrigado. – Se pôs novamente de pé e começou a fazer força. Suas orelhas foram ficando cada vez mais pontudas. Seu nariz se tornou um focinho. Sua boca ficou pequena e com dois dentes superiores para protuberantes. Ficou um pouco curvada. Suas mãos ficaram peludas e com garras. Seus pés rasgaram seus sapatos. Suas pernas engrossaram ao ponto de rasgar a calça praticamente toda mostrando coxas muito grossas por conta de uma musculatura excessiva.
            - Acho melhor você ficar distante. – Pediu Lepore. Em seguida deu um salto se impulsionando para fora de novo. Se tornou um borrão atravessando a porta, e deixou uma rachadura na cerâmica da boate.
           
Do lado de fora Lupu já havia se transformado em um lobo bípede imenso e estava lutando contra Bisone que estava maior do que já era. Com um par de chifres pequenos. Sua roupa toda havia se rasgado, seu corpo estava coberto por pelos. E no lugar de pés, tinha cascos.
            - Não faz isso Bisone, já disse que não viemos aqui pra te matar – rosnou Lupu.
            - Não é o que tá parecendo. – Respondeu Bisone investindo em mais uma cabeçada.
            Lupu esperou pelo ataque e o recebeu inteiro no peito, mas conseguiu frear a fera abrindo uma fenda no chão. Ele cravou suas garras nas costelas do seu adversário, que mugiu alto, em seguida o levantou e o jogou para o lado.
            - Vamos finalizá-lo Lepore. – Informou Lupu.
            Lepore pegou uma das adagas que estavam em um suporte elástico em sua perna e foi caminhando até Bisone.
            - Deixa que eu faço isso. – Disse Lupu se virando para pegar a adaga de Lepore, quando foi acertado por um coice que o lançou do outro lado do beco e rachou o reboco da parede. Lupu caiu sentado e muito tonto para conseguir se levantar. E já voltando a forma humana.
            Lepore puxou mais duas adagas e ficou em guarda.
            - Eu não queria que as coisas acabassem assim.
            Bisone se agachou um pouco e se inclinou pra frente:
            - Não vou me tornar o animal de estimação de quem já me transformou em monstro.
            Lepore realmente não queria matar seu antigo amigo, era um dos mais próximos, mas aquilo fazia muito tempo, muito antes da missões militares que os separaram, muito antes do programa militar ser encerrado e terem suas experiências caçadas. Muito antes deles perderem a inocência.
            Ela sentiu seus olhos arderem. Estavam marejados:
            - Por favor, não faz isso. Por favor, não.
            Bisone disparou pra cima de Lepore. Seus cascos abriram fendas no chão.
            Lepore se agachou e foi pra cima de seu adversário, mas no momento de quase colisão dos dois, ela girou pra esquerda e enfiou uma das adagas – a de sua mão esquerda – no peito da criatura. Girou seu corpo quarenta e cinco graus e enfiou a outra adaga na coluna do seu alvo.
            Ele capotou, caindo primeiramente de face no chão, seu corpo levantou, dando uma cambalhota torta, que quebrou sua coluna no meio e bem no inicio da nuca. Ele parou praticamente ao lado de Lupu que já estava se pondo de pé.
            As lágrimas já estavam escorrendo pelo rosto peludo de Lepore.
            O alvo estava agonizando.
            Lupu pegou a adaga que ele havia deixado cair e como um ato de misericórdia perfurou o coração da fera, dando fim a ela:
            - Me desculpa grandão. Eu realmente não queria fazer isso.
            Os olhos de Bisone arregalaram. Estavam marejados. Uma lágrima escorreu. Lentamente seus olhos foram fechando. Ficaram semicerrados.
            - Como você está?
            Ela respondeu em meio a lágrimas:
            - Nada bem. Eu queria que ele tivesse vindo com a gente.
            Lupu pegou um celular dentro de sua bermuda e começou a fazer uma ligação:
            - Esses telefones realmente são resistentes.
            Lépore se manteve calada.
            Alguém atendeu:
            - A missão não saiu como o esperado e tivemos que neutralizar mais esses. – uma breve pausa – Sim senhora. Como quiser. Já estamos a caminho. – Desligou o telefone – Ela mandou a gente voltar.
            - E ele, vai ficar aqui e jogado?
            Bisone já estava voltando a sua forma humana.
            Lupu respondeu a pergunta de sua parceira:
            - Ela vai mandar a equipe de limpeza, mas vamos logo embora.
            Lépore, preferiu não olhar pra seu amigo. Virou de costas já voltando a forma humana e saiu daquele beco escuro. Aquele era o terceiro amigo de infância que ela matava, e ela tinha certeza que não seria o último.
           
Quando os dois já estavam longe o rapaz de cabelos longos e ondulados se aproximou do corpo no chão:
            - Me desculpe meu irmão. Não fui tão rápido. Eu queria ter chegado em ti antes deles. E me perdoe por não ter feito nada para impedir – Se agachou e fechou os olhos do cadáver – Ainda preciso passar muito tempo longe dos holofotes. – Se ajoelhou – E você vai ter a sua vingança eu prometo. 
            Uma voz feminina suave completou:
            - E até lá irmão. viva dentro de mim.
            A ruiva recém-chegada aplicou uma mordida na jugular do cadáver e começou a sugar o sangue frio e prestes a começar a coagular estacionado nas veias de Bisone, que um dia teve um nome de verdade, mas esse nome há muito havia sido esquecido e apagado de todo e qualquer registro.
           


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